Pego meu carro e vou dar umas voltas pela cidade numa noite agradável como essa. Em pouco tempo estou na Paulista sentindo o vento bater no meu cotovelo esquerdo, não faz frio e àquela sensação dava vontade de ir mais devagar. Olho as meninas que passam empinadas nos ônibus e imagino a cor da renda do seu sutiam, sou como todos os moços dessa cidade.
Desço a Augusta e vejo na puta que cola na minha porta o convite para uma noite de amor inventado. Amorzinho - como ela me chama - ia me fazer bem. Penso que ia ser bom acordar ao lado daquela menina bonita que nem a maquiágem vagabunda conseguiu esconder. Olhava para ela em seu casaco de pele sintética me mostrando seu torneado par de coxas. Vou embora puto de raiva por estar sem o dinheiro que ela me cobraria para me dar o amor que só dão as meninas dessa cidade.
Sigo olhando para aquele universo paralelo, totalmente kitsch e reconheço em cada rosto desgastado pela noite a cara dos pais-de-família que dividem o sereno para defender o leite dos seus. Sigo tentando achar um motivo para me resignar assim como se resignam os moradores dessa cidade.
Subo a Brigadeiro vejo a atendente de farmácia entendiada em seu balcão. Desvio o olhar em busca de alguma mais interessante, mas só há bêbados em bares e vagabundos dormindo em baixo da marquise. Acelero com pressa para fugir daquele pedaço de cidade decadente, assim como fogem os transeuntes dessa cidade.
Estou de novo a caminho da Dr. Arnaldo, passo em baixo da cidade que guarda bonitos grafites feitos por artistas da periferias. Bandidos latentes que morrerão de tiro de polícia como sempre morrem todos os bandido dessa cidade.
Por onde andarão as mulheres dessa cidade?
Na Marginal vejo uma cidade cortada ao meio por um rio de águas mortas e deixo a vista se confundir com os faróis na contra-mão. Acelero meu carro e corro, como fazem os motoristas dessa cidade.
No suposto fim da avenida, busco ansioso por um retorno. Lembro do pedaço de pizza que sobrou de ontem e me dá vontade de voltar para casa. Me distraio no caminho de volta com os aviões cortando o meu para-brisa. Finjo achar normal como fingem todas as pessoas dessa cidade.
Hora de dormir, penso no dia de amanhã e me dá uma vontade que a noite dure mais. Me esqueci de passar a camisa. Preciso lavar as minhas roupas... Como é dura a vida dos que trabalham nessa cidade
Em Os Sertões "O Homem" - 1a Parte vi em alegorias um Brasil lindo, rico na sua história e nas fatalidades determinantes. Foi assistindo as transcedências de José Celso que compreendi que de casualidade em casualidade as coisas podem dar muito certo, sim. A nossa história está aí a nos mostrar isso.
Senhoras e senhores, ir ao Teat(r)o Oficina assistir a segunda parte de Os Sertões não é apenas um dever cívico, trata-se de uma necessidade na tentativa de compreender quem somos, que gente é esses tais brasileiros.
Antes de falarmos da montagem da peça se faz necessário saber alguns aspectos sobre o livro.
Os sertões (Euclides da Cunha, 1902) narra os horrores do massacre que seu deu em Canudos no ano de 1897 após algumas batalhas perdidas pelo Governo Republicano na tentativa de destruir a comunidade formada por Antonio Conselheiro e seus seguidores. O livro é dividido em três partes: A Terra, O Homem e A Luta, onde o autor faz uma verdadeira fotografia focando cada um destes aspectos.
A montagem da peça também está assim dividida. No final do anos passado foi montada A Terra, um espetáculo belíssimo com suas imperceptíveis quatro horas de duração. Agora está em cartaz O Homem 1a Parte - Do Pré-homem à Revolta onde viajamos até os primórdios da colonização para entendermos a formação do homem brasileiro e descobrirmos que não há um homem tipicamente brasileiro e nem poderia, pois somos o caldo resultante da mistura entre europeus, africanos e índios, esses colonizadores/usurpadores que aqui estiveram, exploraram e se foram deixando para trás o signo da devastação.
São tantas ideias em veredas, tantas alegorias que não há como não se sentir orgulhos em ser Brasileiro. Não dá para olhar essa riqueza toda e nao dizer de peito erguido que somos orgulhosos por termos nascido nessa porção dos trópicos.
Ponha seu tênis mais confortável e vá à Rua Jaceguai 520 ver o Brasil de José Celso Martinez Correa que deve também ser o nosso. Uma terra alegre, rica, colorida, mas conscienciosa do peso e leveza de ser o que é.
Com tanto primor assim resta apenas uma coisa a dizer: merda José Celso!
A partir de hoje, vou começar a publicar uma história que estou escrevendo que tem o título provisorio: Histórias da Terra-Santa. Será a primeira vez que teremos uma história continuada aqui nesse bLOg e o gancho para você indicar as continuações vai ser um selo com essa imagem acima, assim, a cada vez que você o vir por aqui, saberá que se trata de uma nova parte dessa história.
Histórias da Terra-Santa é uma versão romenceada de algumas lembranças e relatos baseados em pessoas - verdadeiras ou não - que conheci, ouvi a respeito ou simplesmente criei.
Na tabela de links (barra laranja ao lado) ficará a sequência para facilitar a vida de quem quiser ler.
Vamos à primeira parte:
***
Historias da Terra-Santa
Gênese
Como um desafio a qualquer lógica aplicada à época da colonização, numa estreita faixa entre o mar e o sertão, surgiu o lugarejo de Terra Santa contrariando assim, a realidade geográfica da região caracterizada pela seca e pela fome. Em meio a rios de água doce, vegetação verde na maior parte do tempo e com apenas duas estações climáticas bem definidas que dividiam o ano na época das chuvas e da estiagem, Terra Santa era uma espécie de oásis para os habitantes das aldeias vizinhas.
Não demorou muito para que os galegos cansados das longas viagens de navio, buscassem refúgio por aquelas paragens, um lugar nem tanto ao mar nem tanto a terra, com muito verde, água doce, plano e que lhes dariam o sustento com a agricultura e toda a sorte de atividades ligadas à terra. Não se tem registro dos nomes dos primeiros habitantes nem dos fundadores de Terra Santa porque esses eram em número tão reduzido, que dava para contá-los na ponta dos dedos, e também ainda não havia naquele tempo o costume de se anotar num papel o dia em que cada cristão havia nascido ou morrido, pois havia tanto trabalho a fazer que tanto um fato como outro eram aceitos com natural resignação.
O entusiasmo lusitano empreendeu a construção das primeiras casas da vila em uma rua que muitos anos depois seria a principal e que ligaria à rua de Baixo (da Matriz) à rua de Cima (do Cruzeiro). A fila de casas germinadas em estilo chalé quase alinhadas com o nascer do sol, tinham o mesmo estilo dos dois lados, variando apenas conforme as posses do seu proprietário. Eram todas altas, de pés-direitos quase inalcançáveis, cômodos amplos, arejados e dentro, meias paredes que garantiam um sistema de ventilação providencial para as épocas de calor. A porta da frente era separada por pequenos degraus que davam direto na calçada, de onde se podia alcançar as duas grandes janelas abertas de par em par.
Por essa época, havia no lugar um mestre de obras por ofício, um português de nome desconhecido que só morreu depois de haver levantado todas as casas. Esse foi o maior orgulho que sentiu quando o sopro gelado da morte veio a sua procura cumprindo seu dever. Os forasteiros que ali chegavam de passagem ou de mudança podiam supor com facilidade tal fato, pois se percebia o traço comum daquele homem em todas as construções.
Numa das casa localizadas bem na metade dessa rua, ficava a única mercearia do lugar que vendia de chapéu de massa à gêneros alimentícios de primeira necessidade. Pertencia a um homem alto filho de portugueses.
Em uma tarde glamurosa de sábado com moças desfilando graciosas pelas calçadas-passarelas, o sol cobria tudo com sua manta dourada e os cachorros levavam suas senhoras viúvas a passear pelas ruas. Sento em uma mesa de bar numa esquina qualquer para ver as meninas passar nestes jardins de asfalto e concreto.
À minha frente, um cachorro fazendo companhia para uma velha senhora de cabelos tingidos. Ambos não trazem na face alegria e leveza dos que vivem, esperam com desestimulada resignação o dia de tudo isso acabar, não querem retornar à casa vazia, compulsivamente arrumada, mas sem brilho e um pouco de vento solar. Perderam a fé no telefone que não toca nunca e já criou visgo de tanto repousar na base. - Garçom, mas uma água com gás!
Desvio a atenção daquele par opaco, cúmplices de tanta solidão infinda e me atenho ao casal da mesa ao lado. Estão tão confortáveis consigo que não se incomodam com as longas pausas de silêncio. Olham numa mesma direção aparentando ter a certeza de todo seu futuro. Descobriram na simplicidade cotidiana o arroubo de um amor fruto da paixão febril. Fizeram um pacto de viverem juntos pelos próximos sessenta anos, pois só assim poderão ter certeza se é isso mesmo que querem para si.
Procuro em meus bolsos a carteira de cigarros mesmo sabendo que não fumo, hesito em pedir uma ao garçom, achei que o momento comportaria essa extravagância, mas logo percebo que as moças da mesa na diagonal desperdiçaram um breve olhar para mim. Passo a observá-las com mais atenção e sou interrompido pelo garçom que me traz outra cerveja.
Na mesa logo adiante um sujeito de estilo pós-hyppie finge ler as notícias do New York Times em seu laptop conectado a internet por seu celular. Precisa mostrar ao mundo que é um cidadão cosmopolita antenado e cheio dos gadjets inúteis. Não carrega nas mãos as marcas de um amor em sua vida.
Olho novamente para as moças que não mais me observam e acompanham pela tv o clip de uma canção que agora toca no rádio. Comentam sobre a roupa da cantora tentando adivinhar a marca e lembram de uma peça parecida que compraram da última vez que foram a Nova York.
De traje esportivo e tênis passa apressada a balzaquiana com seu jovem namorado. Caminha mais adiante satisfeita puxando-o pela mão. Acredita estar vivendo um instante perfeito.
Peço a conta e pego minha bicicleta. Já na rua, tento descobrir qual a melhor marcha para subir a ladeira e chegar em casa a tempo de assistir da minha janela ao espetacular pôr-do-sol que só essa cidade tem, com suas milhares de cores em tons lilás.
- Esse aí ó - disse enquanto apontava para o filho - vai ser o futuro Pai.
A mãe, a outra banda da gênese, volta ao princípio como um círculo infinito.
A vida em camadas se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo...
Gostava daquela pose macho-libertária do seu último rebento.
Cochilou no seu colo. aquele homem explendoroso e ela travada, não sabia mais fazer carinho.
Era tão parecido com o Pai que queria beija-lo, como quem beijasse o passado, naquela pele serena que só a juventude tem.
Achava lindo, ainda que aflitivo, aqueles seus meninos, hoje todos homens de sua vida, fazendo o mesmo caminho, só que agora sós, cada um num caminho trilhado de si para si. Não andavam mais com suas pernas depois que ganharam o mundo e voltaram com seus amores destemperados e sem sal, mas com netos futuros materializados.
O primogênito era o preferido pela própria condição. Tinha os traços todos dela, boêmio e polêmico, atraente e libertário, só não seguia o caminho do vento para não perder a originalidade. O segundo duela com ela e sua beleza, rivalizavam em tudo, discordavam sempre, a única coisa que dividiam eram um grande amor recíproco e não declarado. Já ele não, era a vida dando voltas precoces. Era ele de novo no caráter, no olhar, andar, falar, pensar, agir e se enfurecer. Até o semblante preocupado ou que vacila era igual.
Via a casa cheia e pensava em como era feliz. Admirado por todos viu! Mas se mantinha longe da audiência tocando sua vida de bailarina. Era atriz e sofria pelos meninos de pouca sorte nas escolhas. Como podiam ser tão fracas, se perguntava a cada novo encontro. Mas se consolava ao saber que eram cegamente apaixonadas e devotas. Inclusive àquele, e sua bagagem.
Nossa, como o tempo tinha passado, até pouco tempo ainda usava aqueles colares de contas... Ah, que tempos àqueles, valeram cada minuto e nunca o vento foi tão fascinante e inexplicável. Daria um livro sua história, quase folhetinesco-chique, quase dantesco-cômico, mas grandeloquente a cada fase.
=====
Fecho a janela do meu apartamento e vou me deitar. Tento esquecer essas elucubrações acerca da vizinha da frente, sentada numa grande sala bem iluminada.
Por:Ana Cristina Tinôco Cronista do Diário de Natal
O vento sopra ondeando a folhagem das árvores. Pássaros estridentes rasgam o silêncio da manhã. Não zoam por eles. Parecem pressentir a dor que cresce encarcerada dentro do peito. Pássaros são interpretes. Traduzem a beleza da manhã em seus cânticos melodiosos e a tristeza dos homens em seus sons lúgubres. Não carregam dor. Se assim fizessem não voariam.
Precisam de leveza, alegria para poder voar, e só a felicidade faz voar, planar, levitar. A dor e a tristeza pesam. São fardos que curvam os ombros, aprofundam as marcas do tempo, descolorem os cabelos. Pássaros sabem disto portanto não se permitem à dor e à tristeza. Se as pressentem, exorcizam-nas com seus piados desarmônicos, que nem chegam a ser cantos, apenas lamentos.
Pássaros são diferentes dos homens. São superiores. Não amam pequeno. Amam suas companheiras e crias pela necessidade de perpetuarem a espécie. Depois da missão cumprida, amam maior. Amam a natureza e glorificam o Criador com seus cânticos de exaltação. Não sofrem nem se despenam pelos amores do coração. Não carregam mágoas pois seu grande amor não é exclusivista. É do tamanho do seu mundo. Do alcance dos seus sentidos.
Homens precisam aprender com pássaros. Precisam emanciparem-se de seus amores pequenos, egoístas e limitados. Amores ilusórios, sazonais que quando passam, como os rios, deixam os solos secos, porém férteis; deixam o peito lavrado e semeado, pronto para fazer brotar a percepção de necessidade de substituirmos o amor individual tão restrito e insatisfatório, pelo amor universal, o verdadeiro e único.
Tinha os olhos de cigano fogoso,
grandes, intensos e pareciam varrer a quem mirava.
Trazia consigo essa marca familiar reconhecida por todos
e suscitava curiosidades nas moças do lugar
ouviam das mais desgarradas que aquilo não era o que de melhor tinha.
Era como, em outros tempos, fora seu pai
econômico nos gestos mas certeiro em suas investidas
e exatamente por isso admiravam sua pose imponente e altiva.
Carregava consigo um ar de desespero
tal qual os atônitos diante de uma catástrofe
e trazia no riso a urgência dos que comemoram tudo de uma só vez
como se fosse a última.
Foi da infância à velhice sem nunca ter sido jovem
tamanha sua responsabilidade para com as coisas
era sério e grave mas sem jamais perder seu jeito de menino
educado com todos - sempre - do tipo que toda mãe gostaria de ter
como filho, genro e com um pouco de sorte, marido, quem sabe?
Por estes dias decidiu ser rico - para ajudar a quem precisa -,
como dizia ele mesmo olhando para o vazio.
Ensinou da utilidade dos lenços de pano para dias de calor
apesar do tempo ido. Estava sempre bem vestido
mesmo quando não era sete de setembro
Um dia o espanto. Todos ficaram atônitos por uma ocorrência
minimamente embaraçosa: foi parar no distrito policial
junto com um amigo e mais duas moças.
Elas alegavam que após uns drinques a mais
e algumas peças de roupa a menos,
os meninos, empolgados, queriam praticar com elas
uma forma pouco ortodoxa de sexo que envolvia desde velas,
luvas de limpeza e alguns tabefes como parte da coisa.
Um escândalo!
Cadê o cara da sua vida, cadê?
Cadê àquele palhaço que ia te fazer feliz?
Não foi você mesma quem disse que ia ficar bem?
Para quê você me chamou aqui?
Que direito você tem?
Não vem me falar que me ama que hoje eu sei,
Você na verdade tem medo da solidão
Não consegue ficar sozinha com você mesma.
Eu entendo, uma noite fria em um quarto escuro e
Cadê você que não tem ninguém.
Aí mesmo está seu problema,
Não ter ninguém.
Você não sabe amar e dividir
quer apenas ter alguém para mandar.
Não começa esse choro que já está bem manjado
sei exatamente do que você vai reclamar,
e depois vai dizer que pode fazer alguma besteira
que não responde por si e essas cretinices que você sempre disse
e eu dissimulei todo esse tempo.
Fala logo o que você quer, porquê o elevador já vai chegar.
Deixei o número da minha conta em cima da tv
vê se não demora para me pagar
e quando fizer não me ligue,
eu vou saber que você devolveu.
Ela
Porquê todo esse rancor? Volta aqui.
Você nem imagina como foi difícil te deixar
eu precisava te dizer isso
não vai ainda.
Não é possível que você já tenha me esquecido.
Solta a porta deste elevador
Se você for eu não vou responder por mim
Você nuca foi só mais um
Eu estava confusa, mas agora sei
que é você quem eu sempre quis.
Sua família me adora
e essa outra eles nunca vão aceitar
Para de ser teimoso e me olha
Eu me arrependo de tudo e agora sei
o quanto você sofreu por mim.
Que culpa tenho de ter sido amada demais?
Descobri que teu lugar é comigo e eu te pertenço
Fui uma tonta, mas peço perdão.
Deixa eu pegar tuas malas de volta
que essa casa está vazia sem você
Me diz que a gente pode de novo tentar
se dar bem e esquecer o passado
me diz que eu posso outra vez te fazer feliz
Me diz isso pelo amor de Deus
Me dá essa chance, só desta vez
Porquê por amor e culpa demais também se morre/mata.
Maria Rita chegou e todos dizem: - oh, mas como a voz dela se parece com a da mãe!
Só mesmo quem não conhece a voz das duas diria tamanha besteira. E digo mais, se seus conhecimentos da discografia da mãe se resumem à "Fascinação" e ao "O Bêbado e o Equilibrista", não dê pitaco, pois qualquer pessoa com uma dose mínima de discernimento ao ouvir as duas saberá que se tratam de duas vozes distintas.
Não vou enveredar por um caminho de explicações sobre quão perfeita é a voz dEla (a mãe), pois isso seria de uma redundância ululante. Já sobre a filha, posso dizer que tem estilo próprio e uma voz muita bonita, daí você dirá: - qual a diferença?
Vamos nos ater ao assunto principal.
Maria Rita Mariano chegou com um disco muito bom. Felicidade na escolha do repertório, nos arranjos, na voz (que não grita) e na fuga de todas aquelas coisas óbvias que fazem todos os cantores em seus primeiros discos.
Coisas óbvias que fazem todos os cantores em seus primeiros discos:
- gritar muito,
- fazer firulas irritantes com a voz,
- carregar nos arranjos,
- regravar sucessos manjadíssimos com versões escrotas e;
- manter o repertorio do disco tão linear quanto a paisagem em São Paulo.
Já ela não, fugiu disso tudo, regravou Milton Nascimento e Rita Lee -é verdade- mas sem apelar para "Coração de Estudante" e "Lança-perfume", por exemplo. Chegou na contra-mão das facilidades instantâneas, gravou gente nova, pôs Marcelo Camelo (vide o próximo parágrafo) em evidência, mas não deixou de reservar lugares para Lenine, Zélia Duncan e inéditas do Milton e da Rita (Lee).
Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante -vocalistas e letristas dos Los Hermanos- ainda terão seu reconhecimento. Anotem aí.
Eu estou ouvindo o disco sem parar e pela primeira vez não sinto a necessidade de tecer comentários inflamados sobre essa nova cantora, pois Maria Rita é cool, explora bem os recursos que possui, está mostrando a que veio, tem firmeza na voz e é tão natural, que só resta uma coisa a dizer:
- só podia ser filha dEla.
Para variar, vinte e cinco em cada dez notas da imprensa falando sobre a moça, se inicia mais ou menos assim: "Maria Rita, fillha da cantora Xxxx Xxxxxx e do músico Xxxxx Xxxxxxx Xxxxxxx, lança seu primeiro disco...".
Aqui, vou poupar vocês desta frase feita.
Se você ainda duvida do que disse, comprove abaixo a diferença:
Quarta, 10/09/03, às 23h. vai rolar show do Otto no Blen-Blen Brazil.
Da última vez que fui a um show dele no Palace (antigo nome de uma tradicional casa de shows aqui da cidade, o atual Directv Music Hall), fora ele que cantava e eu que pagava de Polyana, todo mundo estava fumando um. Se a polícia me para na rua depois que saí de lá, até eu explicar que o cheiro não era meu, já ia ter apanhado mais que mala véia. Isso se eu não fosse parar no distrito.
Substâncias psicotrópicas à parte, acho Otto muito bom, tal como o Chico Science e sua Nação Zumbi.
Mangue-beat, ciranda eletrônica ou qualquer outro clichezinho que você queira usar, o que importa é a mistura de sons muito interessantes.
Vá lá porquê eu vou e assim quem sabe não é sua grande chance de conhecer um cara legal de olhos castanhos...
"De quem eu estou falando"? Claro que é sobre mim, porra!
Imagine um sujeito franzino, baixinho, levemente corcunda, bicudo, usando um Gumex no cabelo que faz parecer que a vaca acabou de lambe-lo, e para completar o style, ainda usa um mal-ajambrado terno da Colombo. Imaginou? Qual nome você daria ao distinto? Sr. Gumex, óbvio!
Pois bem, o Sr. Gumex existe, tem emprego fixo e tem até telefone celular. Sim amigos, o telefone celular é um parágrafo à parte em sua vida.
O celular do Sr. Gumex
Como hoje, vinte em cada dez empresas têm layout aberto, somos obrigados a conviver com as maiores bizarrices dos nossos colegas de trabalho. Há quem ouça música Indiana em pleno expediente, outros que acham que a mesa tem que parecer com a réplica de um carro alegórico da Beija-Flor e ha ainda os histéricos do celular.
Ah, esses infelizes. Dão pulinhos de alegria a cada vez que seus módulos portáteis de comunicação tocam e não contentes em berrar com o interlocutor, ainda ficam zanzando na sala segurando o aparelho na pontinha dos dedos, com um ar de: hei! Percebam minha presença.
E o Sr. Gumex preenche todos os requisitos anteriores.
Eis que um dia, estava eu resolvendo alguns assuntos na matriz quando de repente vejo a minha frente àquele imenso capacete besuntado, trajando mais um terninho vagabundo. Sim, senhoras e senhores, era ele, o Sr. Gumex, que num tom grave e de sobrancelhas em V me perguntou:
- vais ficar o dia todo aqui?
E eu, esse cara tímido que sou, numa tentativa de abreviar aquele diálogo e tira-lo da minha mira, balbuciei algo como:
- Não, já estou voltando ao CD (centro de distribuição).
Foi quando ele, num tom solene segurou o celular com as pontas dos dedos e disse enquanto balançava o outro dedo no ar:
- preciso falar contigo. Me ligue. Me ligue!
Indicando o celular, sumiu corredor afora para meu conforto.
Análise da cena
1 - Se o Sr. Gumex é quem quer me falar, porquê eu é quem teria de liga-lo?;
2 - Quem disse a ele que eu tinha o seu telefone (eu não tinha)?;
3 - Se o assunto era tão importante, porque ele não me ligou antes?
De volta ao CD e já devidamente instalado em minha mesa, o telefone toca e era ele, o Sr. Gumex, num tom solene de cantor de ópera bufa, a me perguntar se eu tinha nascido em n@/%* e eu respondi que sim. Nessa hora - até imagino a cena - ele abre o bolso do palitózinho, saca aquele lenço marrom ultra demodè e enxuga as lágrimas que lhe caem, dizendo:
- Eu também. Eu também!
Senhoras e senhores, tirem as crianças da sala, pois a denuncia expontanea que aqui farei NUNCA MAIS será repetida:
O Sr. Gumex confidenciou-me que era meu conterrâneo.
Não, Deus não pode ser tão mal comigo! Pensei.
Como, de uma cidade que nem chega a ter doze mil habitantes, poderia ter saído àquela figura tão, tão... Suigeneris (digamos assim)?
Meu mundo caiu. Só falta agora ele querer saber como estão seus parentes de la e que eu lhe dê notícias da terra santa.
Eu encontrei-a quando nao quis
mas procurar o meu amor
e quanto levou foi pra eu merecer
antes de um mes eu ja nao sei
e ate quem me ver lendo jornal
na fila do pão sabe que eu te encontrei
e ninguem dirá
que é tarde demais
que é tao diferente assim
o nosso amor
a gente é que sabe que pena
ahh vaii
me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
afim de te acompanhar
e se o caso for vira pra eu
levo essa casa numa sacola
eu encontrei-a quis duvidar
tanto clichê
deve nao ser
voce me falou
pra eu nao me preocupar
ter fé e ver coragem no amor
e só de te ver
eu penso em trocar
a minha tv num jeito de te levar...
a qualquer lugar
que voce queira
e ir onde o vento for
e pra nos dois
sair de casa ja é
se aventurar
ahh vaii
me diz o que o sossego que eu te mostro alguem
afim de te acompanhar
e se o tempo for te levar eu sigo essa hora
eu pego carona
pra te acompanhar
Um dos (quase) três leitores (quase) diários desse blog me escreveram preocupados, pois segundo sua própria interpretação, "sentiu" que eu estava triste e um tanto carente.
Primeiro vamos tratar do leitor.
Caro blogespectador, obrigado pela preocupação, mas não se iluda com tudo aqui escrito.
Agora vamos tratar das interpretações do que aqui é escrito.
Esse blog é na verdade, uma versão moderna para os muito cadernos que tenho e escrevo, algumas coisas que penso, sinto, me ocorrem ou simplesmente invento. Por isso, advirto a todos: não se enganem com as palavras. Elas sempre seduzem mas nem sempre esclarecem.
Nem sempre esclarecem por uma razão muito, mais muito simples mesmo: cada pessoa tem uma forma de interpretar o que lê/vê/ouve e assim sendo, é muito fácil você projetar em mim o que na real está acontecendo com você, sacou?
Como assim "projetar"?
O tio Freud (é, àquele mesmo de barba branca e charuto em punho...) explica que nossa psiquè se utiliza de uma ferramenta chamada "Projeção", e essa funciona como um espelho, grosso modo. Ou em notas de R$ 1: eu só reconheço nos os outros os erros, intenções e sentimentos que trago dentro de mim e apesar de não conhecê-los conscientemente, identifico-os em quem está a minha volta.
Foi para conta?
Sendo assim, querido leitor, será que não é você quem está "triste e um tanto carente"? Te pergunto isso porquê daqui está tudo sob controle. Continuo acreditando nas coisas boas da vida, no ser humano, apesar de suas falhas, buscando um amor de verdade, aproveitando os provisórios, chorando de quando em vez, rindo na maior parte do tempo, cuidando dos meus para traze-los sempre ao meu lado e de olho na mediocridade para não cair nela.
E daí, como estão as coisas com você?
Para saber do que falo, dê esse texto para seu colega de trabalho ler e veja se ele entende e-xa-ta.men-te da mesma forma que você.
Assim sendo, relaxe e aproveite sua estada aqui para partilhar ideias (use os comentários dos posts), dividir sentimentos, discordar, concordar e se for o caso, fazer seus desabafos também. Deixe a análise para os analistas. Se eles precisam de quatro anos para aprender a fazer isso e mais tantos outros de seções semanais com seus analisados, quem somos nós para querer fazer isso só na leitura de um texto?
Se for por falta de adeus, eu imploro que desfaça suas malas e me diga onde estou errando, ou pela raridade, onde é que estou acertando. Sim, porque mesmo sabendo que o amor é como uma dança e ainda que eu tenha a consciência que fui eu quem te convidei, não é justo que você diga que só eu não sei dançar. Tropeços, falta de compasso e pequenas pisadas no pé fazem parte. Agora dizer que fui eu o culpado por tudo, tenha dó.
Pensando bem, vá embora! Leve tudo o que você entender que te pertence,mas vá depressa e de uma única vez. Não quero ter que encontrar você pela casa a juntar suas mumunhas. Vá e não deixe nada que não seja meu. Leve tudo o que quiser, só nã o leve a certeza de que fui um cara honesto contigo e que te amou demais. Disso, darling, pode me acusar que eu assumo.
E não pense que ficaram ressentimentos ou mágoas, mas também não espere que ao te encontrar andando pela rua eu vá te beijar a face como fazem os
velhos amigos. Não há amizades depois de um amor que foi meticulosamente desconstruído. Não estranhe, porém, se ao ver você, eu te ignore tacitamente. Você não imagina quão ácido um homem apaixonado consegue ser. Deus te livre de mim.
Vá e conte para as amigas quão "bonzinho" eu fui. Conte como eu cuidava de você e me preocupava em saber estava bem. Como segurava sua mão nas tuas crises de cólicas. Vá, conte, diga a todas elas que você nunca foi tão amada, diga do sufoco que era te aturar em suas fases de lua insana. Conte - com um olhar perdido de arrependimento - que nunca mais você vai encontrar um homem assim e depois, para não pegar tão mal, justifique-se com alguma frase dizendo que "eu fui o homem certo na hora errada", ou coisa parecida. Ou coisa parecida darling...
E então chegou o dia do maldito acidente. Maldito, com todas as letras que compõe essa palavra. O dia em que eu me agarrei com a pouco força que tinha na porra da esperança. O dia em que as horas não passaram e do meio-dia fez-se noite. No dia em que ela corria de braços abertos a gritar a notícia mais assustadora de todas. Porquê, amigos, não há maior susto no mundo que saber de uma notícia aos gritos.
E eu, cidadão, pedia a Jesus Cristo que me ajudasse a racionalizar aquilo, que me ajudasse a arranjar uma explicação lógica e matemática para tamanho infaticídio. O quê, meu Deus? O quê poderia justificar e acarretar ato tão malsã? O quê? Muitos foram os mensageiros das mais sórdidas notícias. Se revezavam a mentir como ninguém jamais fizera.
Na noite, gritos horríveis foram ouvidos, inconsoláveis de tanta dor que traziam. Inalcançáveis por tamanha dor que os geraram. Estava plácida, apesar de tudo, trazia nos lábios um sorriso enigmático como só as Giocondas têm. Mas não convenciam a ninguém. Ninguém ali queria acreditar, queriam ela lá, feliz ao lado dos seus, daquelas que só comemoravam sua estada lá. Por anos não a perdoei. Anos a fio achando que sem aquilo, ela não teria partido. Não assim, tão sem dizer adeus, se cuida, não tome friagem e todas essas coisas que elas dizem sempre, e sempre, e sempre, e sempre, e sempre, e sempre, e sempre, e sempre .
Quem autorizou você a ir assim tão cedo heim? Quem poderia ter sido tão irresponsável assim? Isso não se faz, sabia? Não se faz.
Hoje, passado todo esse tempo, bebo, choro e liguei o som no talo. Só não aumento mais porquê não tem mais botão para girar. Choro sim o mais alto que eu consigo e foda-se alguém se acordar com ele, e foda-se se o síndico resolver reclamar e foda-se quem passa pelo corredor e tem medo. Choro de homem é assim mesmo, demora para sair, mas quando consegue far tremer metade do quarteirão.
Não, senhoras e senhores, não se resignem. Isso é assunto meu e de nove mais, e de outros tantos que se lembrarão de sua presença. Sigam suas vidas normalmente, não nos disseram que esse é o fluxo natural da vida? Nascer, crescer reproduzir e plantar árvores ou desocupar a vaga aqui em baixo?
Mais vinho e quem sabe eu não consiga ir para cama cambaleante, esbarrando na quina da parede e durma, como dormem as pedras? Quem sabe o frescor da embriagues não me vença e assim, alma inconformada, eu não desperte amanhã em meio aos semáforos, cruzamentos e buzinas, com a lucidez dos que vivem de segunda a segunda.
E foda-se você e seus malditos acentos. Os bêbados não sabem configurar teclados.